foi um rio que passou em suas vidas... Se não fosse o preconceito, o mesmo que condenou Wilde e que não compreendeu Woolf, não os libertou da incompreensão. Preconceito este que não os deixou viverem suas possíveis e verdadeiras vidas, suas verdadeiras histórias de amor, interrompidas por linhas mal escritas com grotescos garranchos daqueles que julgam... Talvez assim, fosse possível de se imaginar... A jovem Virginia, num tranqüilo fim de tarde em Londres, aos seus 18 anos, enquanto Oscar, com 59 - se não tivesse partido - teriam se encontrado. A jovem intelectual - descobrindo a literatura e o amor, teria procurado encontrar o famoso e polêmico literato e dramaturgo. Ele veria nela seu passado de incertezas, descobertas e juventude e marcariam um chá, assim que ela o abordasse, se apresentando como uma fã. Chegariam juntos, vindos de lados opostos e com pontualidade britânica, num chá das cinco. Conversariam... sobre arte, amor e literatura, é claro. Ele passaria toda a sua experiência e alegria, mas talvez as obras de Virginia não seriam as mesmas. As badaladas do Big Ben - mergulhariam no som de suas palavras. Suas idéias mergulhariam em suas mentes e estilos tão adversos. Suas obras mergulhariam da mesma forma na história, talvez por mais tempo, talvez não. Entre biscoitos e fatias de um bolo inglês, mergulhariam nas xícaras de chá para molharem suas gargantas tão ressequidas de tantas palavras e idéias trocadas. Mergulhariam seus lábios no sabor amargo do chá preto. Muito doce, mesmo sem cubos de açúcar se comparado ao amargo sabor do preconceito e da exclusão. Moral da Nossa História ou de Nossa História Sem Moral? O que podemos concluir - das vidas conturbadas de Wilde e Woolf é que os conceitos pré-definidos sempre destruíram e continuam destruindo o que encontram pelo caminho. Desde que o mundo é mundo existem relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, denominados por uma infinidade de “codinomes”. Depois de já ter sido considerada uma doença - mesmo assim presenciamos cenas grotescas onde se faz presente e atual o discurso de Wilde no ano de 1895, provavelmente, pessoas que se acham muito modernas e descoladas ainda não saibam que estão atrasadas em alguns séculos. Seria muito difícil ceder ao talento de tantos homossexuais, com tamanha sensibilidade e que já idolatramos: cantores, compositores, poetas, atores, estilistas, pintores, etc. É bem curioso pessoas apedrejarem quem nem ao menos conhecem e ao mesmo tempo adoram um pôster de um ídolo do qual sabem tão pouco de sua vida íntima ou sexual. Muito cruel... é sabermos que o amor que não ousa dizer o nome é depois de tanto tempo algo ainda tão presente na vida de tantas pessoas que não podem dizer um simples nome, pessoas que às vezes estão do nosso lado, em nossa família, em diversas outras profissões, religiões e grupos. O mais absurdo é - vivermos numa época onde pagamos para assistirmos crimes e sangue no cinema, ficções bem próximas de nós, mas repudiamos diferentes formas de amor, só porque não é a nossa, que foi formatada por uma sociedade que condena, queima na fogueira, mata, exclui e difama tantas pessoas por engano no decorrer de nossa história e que, por isso, não deveria ser digna de crédito. Já que até a justiça é cega - o que podemos esperar de uma sociedade? Cabe a mentes mais abertas tentarem fazer com que – neste mês – exatos 111 anos depois, uma frase não seja ainda tão momentânea. “O Mundo zomba desse amor e às vezes expõe alguém ao ridículo por causa dele.” A jovem e alegre Virginia... sairia da casa de chá, sorrindo e cheia de esperança, pensando na amizade que havia feito. Caminhando pelo meio da rua, solfejaria uma canção distante que nunca viria a conhecer. “Era dia de carnaval. Carregava uma tristeza. Não pensava em outro amor. Quando alguém que não me lembro anunciou: Trazendo alvorada. Meu coração conquistou. Ai, quando vi você passar.Senti o meu coração apressado. Todo o meu corpo tomado Minha alegria voltar.” (Foi um rio que passou em minha vida - Paulinho da Viola)
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
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